jan 5 2011

Presentes

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A sacola pesava em suas mãos. A leve chuva que caía não era motivo para que ele reduzisse seus passos, pois já estava bem atrasado. Um encontrão aqui, outro empurrão aqui, era parte do ritual, devido as ruas entupidas de pessoas que faziam suas compras de final de ano.

“Ela irá gostar”, pensou ele em sua netinha de poucos anos. Havia comprado um ursinho azul (ela adorava azul) e esperava que ela gostasse. Olhou novamente no relógio, e notou que se não corresse não chegaria em casa a tempo de entregar o presente e as frutas para a ceia.

Ao passar por debaixo de uma ponte viu uma criança que se abrigava da garoa. A menina estava triste, um roupa um pouco poída e um olhar perdido no tempo. Ela tinha um pouco mais do que a idade de sua neta. Passou pela menina de olhar triste e continuou o seu caminho. Mas algo o fez parar. Com certeza a pequena garota não teria uma noite feliz e talvez nunca tivesse tido. Continuou olhando para frente, perdido em velhos pensamentos, lembrando da vida difícil que havia levado em sua infância. E agora sempre tentava dar o melhor possível para que sua família não sofresse o que ele havia sofrido.

Vagarosamente voltou seu olhar para a menina que continuava sentada no tijolo, tentando esconder-se da chuva. A sacola com o urso de pelúcia queimava em suas mãos. Voltou pela calçada até parar na frente da menina, tirou o presente da sacola, deu para ela e desejou uma noite feliz para ela. Deu um pouco das frutas que carregava também. A felicidade da criança foi evidente. Ela perguntou se ele era o papai noel de verdade, ele disse que não, apesar da sua rala barba branda começar a denunciar sua idade. Pode escutar gritos de alegria enquanto se afastava dali. Sua neta entenderia, com certeza, o bem que ele fizera.

Contudo, precisa apressar-se ainda mais. Ao chegar a um cruzamento parou, aguardando o sinal dos carros fechar para que pudesse atravessar a rua. Foi ai que viu um senhor, com óculos escuros, andar inseguro, que tateava com sua bengala seguir em frente. Seu sangue gelou. O tempo parecia correr bem mais lentamente, parecia que o relógio estava parado. Olhou pela rua e viu que um ônibus aproximava-se rapidamente. Não pensou duas vezes; correu em direção ao velho agarrou seu casado e o puxou violentamente para trás. Por poucos centímetros conseguiu salvá-lo. O ônibus passou buzinando e em alta velocidade.

O velho, ainda assustado, agradeceu enormemente. Disse que estava meio perdido e que não saberia chegar sozinho em sua casa, que ficava não muito longe dali. Pediu se não poderia ajudá-lo. Ele olhou em seu relógio e viu que ainda daria tempo de chegar para a ceia se fosse rápido.

O velho segurava fortemente em seu braço, talvez com medo de cair ou tropeçar em algum buraco. Pelo caminho foi contando sobre como as pessoas estão ficando cada vez mais descrestes, sobre a falta de bondade e sobre outros pensamentos. Ele por sua vez tentava sempre animar o estranho ancião, dizendo das coisas belas e boas da vida. E assim foram, primeiro passando por ruas arborizadas, caminhando por um dos bairros que ele dificilmente freqüentava. As ruas foram ficando cada vez mais desertas, latas rolavam pelas calçadas sujas e portões mal lubrificados, não obedeciam mais seus trincos.

O sol já havia sumido no horizonte quando chegaram em frente a uma casa castigada pelo tempo, que possuia uma luz avermelhada vindo da sala principal. Tentou despedir-se do velhote, mas esse insistia cada vez mais para que ele entrasse. Ele cortesmente disse mais uma vez não, quando uma forte pancada na cabeça o fez cair no meio fio.

Ele começo a recobrar a consciência aos poucos. Estava no chão, com as mãos amarradas as costas e com o rosto sobre um velho tapete empoeirado. A luz incandescente que pendia do teto, no centro do quarto era muito fraca, mal dando para ver tudo o que ele continha. Forçando a vista viu um cena chocante. Em um dos cantos uma mulher estava jogada, morta, com sangue por todo o corpo. Ao seu lado um homem, também morto. Tentou gritar, mas viu que estava amordaçado. Começou a se debater, quando o velho apareceu. Olhou ele, com um sorrido terrível no rosto, sem os óculos escuros. Ele não era cego! Junto a ele surgiram dois outros velhos, com o mesmo olhar de desprezo. O velho disse:

- Você deveria estar agradecido! Será o meu presente!

Foi ai que ele escutou um som vindo de cima. A luz não deixava ele ver direito, mas parecia um berço estranho. O som era, era, inumano! Seu sangue gelou, o coração batia descontroladamente e o suor aflorou por todos os poros. Aos poucos vislumbrou um ser que parecia ter saído de um filme antigo. Era pequeno, possuia dentes pontiagudos e um olhar sem compaixão. O hálito de latrina completava o terrível quadro. Olhou de lado e entendeu a cena: a criatura havia matado aquelas pessoas e chegava a vez dele.

Começou a pensar em sua família, e lágrimas afloraram em seus olhos. A criatura parecia que iria descer para dar o bote quando, de repente, a porta foi escancarada seguida de uma voz:

- O que é isso???? Atirem nessa coisa!

Logo em seguida, ele desmaiou.

Acordou em uma maca, já fora da casa. As luzes vermelhas iluminavam a vizinhança, que parecia agora estar toda na rua. Um policial chegou perto dele e contou o que havia acontecido. Ao chegarem na casa, olharam pela janela e viram que ele estava amarrado no chão, possivelmente sofrendo alguma violência. Ao arrebentarem a porta, deparam-se com um ser estranho e mais três pessoas. Atiraram na coisa, que desapareceu e não foi encontrada. Quando aos velhos, foram presos por assassinato, cárcere privado e tortura.

Os médicos iam levá-lo para a ambulância, quando ele perguntou como eles o haviam encontrado. O policial apontou para uma casa próxima, dizendo que uma garotinha ligara dizendo que homens maus haviam batido no papai noel. Ao longe, viu uma menina com um urso azul nas mãos, antes que os analgésicos fizessem com que ele dormisse novamente.

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Se preferir, ouça o conto clicando no player lá em cima, no começo do post. Todos os efeitos sonoros são do site The Freesound Project.


dez 4 2010

A cabana

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Sim, ele sentia… seu coração falhava. Obviamente, não sem razão.

Na parte de fora do velho casebre carcomido pelo tempo, escutava unhas a rasparem as portas, paredes e tentando entrar pelas janelas entulhadas com os poucos móveis do local. Como sairia dali? Como levaria seu já debilitado coração para o mais longe possível daquele lugar? Como ficara nessa condição?

Tudo acontecera muito rápido, há alguns dias… ou seriam meses? Ele já não conseguia distinguir o tempo, talvez pela falta de comida, ou pela pouca água que ainda conseguia sorver em intervalos cada vez mais escassos. A mente prega peças, pensava ele.

Descera no pequeno aeroporto da cidadezinha buscando informações sobre um local que ficava há alguns quilômetros dali. Pergunto para vários moradores locais, que simplesmente o ignoraram. Um deles deu a direção e mostrou a estrada, em troca de algum dinheiro. Após horas de viagem, uma mangueira partida, ou algo assim, fez o carro parar. Ele nunca fora bom com carros, nem com outras coisas. Na verdade, apenas em uma delas: arqueologia. Formado em uma grandiosa universidade no exterior, conseguira realizar muitos sonhos e conhecer muitos lugares. Apesar disso, todo esse conhecimento de nada lhe valia agora. Catalogar histórias de seres do passado já não mais importava. O presente era muito mais forte e desesperador.

Ao viajar para o interior do país, perdeu o contato com tudo e todos. Sem sinal de celular, apenas uma bússola com o vidro trincado, um pouco de comida enlatada, ao sair da estrada para procurar ajuda para seu carro quebrado, perdeu-se na mata fechada. Com o tempo, sua tranquilidade foi ficando cada vez mais afetada ao escutar sons estranhos e um choro que o incomodava.

Explorando desesperadamente a área, conseguiu achar uma casa poida, quase caída, no centro de uma clareira. Buscando ajuda chegou aos pés da escada quando um som inumado chegou aos seus ouvidos, vindo na mata próxima. Instintivamente entrou na casa e fechou a porta, apenas para ser quase jogado ao chão pelo ser que desejava entrar desesperadamente.

Buscando forças, conseguiu manter a porta fechada. O ataque cessou repentinamente. Sem entender o que acontecera, tentou imaginar o que poderia ter sido aquilo. Deveria encontrar urgentemente ajuda, mas antes deveria tentar fechar o máximo possível o pequeno casebre. Notou que ele já estava fortificado, por tábuas nas janelas e mobílias dispostas para impedir a entrada de algo insanamente estranho.

Viu que o local possuía uma pequena cozinha, com alguns baldes com água salobra e nenhuma comida. Em um dos dois quartos encontrou um toco de vela e uma cama destruída para servir de barricada. No outro, uma visão trágica, mostrada apenas pelo sol que entravam pelas frestas do antigo telhado: ossos, ossos humanos quebrados, em uma posição estranha. Como arqueólogo nunca havia visto algo assim antes. Os ossos estavam limpos, brancos como cal, mas colocados de modo a formar um altar e no centro o crânio. Viu que ali estavam os ossos de mais de uma pessoa.

Saiu do quarto para ver que não havia um porão, apenas um sótão. Colocou uma mesa e forçou a pequena porta, que estava tancada pelo lado de dentro. Começava a escurecer quando um temporal desabou sobre toda a mata. Com seu instinto de sobrevivência aguçado, correu para a cozinha, jogou a água velha e pelas frestas do telhado pegou água nova, pois não sabia quanto tempo ficaria naquela situação.

Por um buraco em uma das paredes viu um vulto passar. Aproximou-se com cautela e olhou para o lado de fora. Só o som da chuva que caía forte era ouvido. Então um guincho ensurdecedor, junto a olhos vermelhos, surgiram na pequena fresta. Ele caiu para trás ao mesmo tempo que a casa começou a ser atacada por todos os lados. Pensou que estava ficando louco. Correu até a sua mochila procurando algo que pudesse defender-se, caso o bando entrasse na casa.

Um trovão ecoou fortemente e os seres assustados correram para longe dali. Novamente o silêncio da chuva voltou a reinar.

Isso havia acontecido apenas no primeiro dia. Ele havia sobrevivido com suas poucas provisões, tomado água da chuva e estava esgotado. As criaturas vinham, tentavam entrar e ele sofria a cada encontro. Ele já não suportava mais. Sentia seu coração fraquejar, olhava a pilha de ossos no quarto, sentia um zumbido que parecia penetrar em sua cabeça.

Havia tomado a trágica decisão. Não suportava ficar ali mais nenhum minuto. O silêncio tomou conta da mata. Iria abrir a porta e correr o máximo que suas forças permitissem. Quem sabe conseguiria escapar? Abriu a porta com o máximo cuidado e olhou em volta. Nenhum movimento nem dentro e nem perto da clareira. Para conseguir chegar até a mata teria que correr uns 50 metros e estava disposto a tentar.

Em um instante pegou-se correndo, seu chapéu caiu com o vento, seus passos surdos na grama baixa. Foi ai que escutou o grito. Correu o máximo que pode até sentir o cheiro das criaturas atingir suas narinas. Suplicou por piedade. Foi envolvido por seres que haviam deixado de serem humanos há muito tempo.

A dois quilômetros dali, em cima de uma alta guarita camuflada e isolada por uma cerca eletrificada, um soldado olhava a triste cena ao lado de seu superior.

- Ele resistiu por quatro dias, cinco horas e doze minutos senhor.

- Sim, sim, foi um dos melhores até agora. Nosso informante trabalhou bem outra vez, lembre-me de dar-lhe mais alguns trocados. Agora solte o dissipador e faça com que as cobaias vão para suas tocas. Precisamos pegar os equipamentos instalados no sótão da casa para concluirmos o experimento.

Logo em seguida foi ouvido um som parecido com um forte trovão, fazendo com que as criaturas, que um dia haviam sido humanas, corressem para as tocas que ficavam em círculo em volta da clareira. Do arqueólogo, sobrou apenas o chapéu, que depois foi colocado sobre a pilha de ossos brancos, dentro da cabana.

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mar 24 2010

Tranças

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Ele entrou na casa. Tudo estava quieto e tranqüilo. Ela já estava a sua espera.

Parecia que ele nunca estivera ali. Um sentimento de perda, sem perdão entrou em seu coração imediatamente. Jogou-se em uma das poltronas da sala quase escura, onde uma luz fraca clareava a ponta de suas botas. Olhou detidamente para o local, tudo parecia no lugar então soltou as chaves do carro novo que estava em sua mão.

Ela sentiu, do alto da escada, um vento passar por entre seus cabelos e com um arrepio ouviu o relógio tocar.

Esticou a mão e pegou um dos porta retratos que estavam sobre a mesinha mais próxima. Olho o feliz casal, o sorriso cativante esperando o timer da máquina captar o momento. A foto mostrava ainda uma toalha xadrez sobre um gramado quase infinito, que terminava aos pés de um escuro bosque, cheio de lembranças recentes e antigas que mereciam ser esquecidas, mas que não seriam. Pelo menos, não por enquanto.

Levantou-se chegando aos pés da escada. Reparou que, sobre a mesa de correspondências, existia uma que não tinha seu nome e que estava amarrada com um fino barbante. Mesmo assim cortou o barbante e viu que dentro do envelope existiam três velhos postais e a foto de uma criança, com um sorriso sem dentes, que denunciava-lhe a idade. Deixou ali essas coisas e subiu os  lances da escada, dois a dois.

Parou no corredor e o vento gelado correu por entre seus dedos. Olhou para sua direita e viu a janela no fundo do corredor aberta. Uma sensação surgiu no fundo de sua mente. Uma sensação nada boa.

Espantou tais pensamentos, entrou em seu quarto, pegou uma toalha e entrou no banheiro. A água demorou a esquentar.

Ela gostava do barulho. Gostava do vapor, do suor, do torpor.

Terminou de enxugar-se quando escutou algo trincar. Algumas gotas de água ainda insistiam em cair. Podia ouvir seu coração bater tão alto como o som do relógio da copa. Aproximou-se do espelho e viu que ele havia quebrado em um dos cantos. Olhou tão de perto que, por instantes, tudo parecia ter escurecido.

Ela queria um momento a sós. Ela teria o que queria. Mesmo com seus olhos nublados, pensou que tinha direito a mais um capricho, mais um desejo, mais um querer.

Voltou para o quarto e viu a grande cama, metade dela vazia. Um sentimento estranho, sem sentido aflorou. Sabia que havia o vazio, mas isso o incomodou. Precisava comer para sentir-se bem novamente, comer um bocado de algo quente com um bom copo de cerveja gelada. O gosto veio atrelado a um pensamento: e se a cozinha não estivesse vazia?

Desceu os degraus um a um, escutando cada um dos rangidos da velha madeira sobre seus pés. Virou para a esquerda e viu a luz da cozinha acessa.

Ela era boa no que fazia. Professora do ano, uma foto com o diretor, um certificado na parede do corredor.

De lá, via-se a cozinha iluminada com sua luz fria. Pela primeira vez na noite, ele pronunciou um nome. Apagou e acendeu a luz da cozinha duas vezes. Cautelosamente entrou.

Pensou ter visto trança, longas e loiras, correndo para dentro da dispensa. Era lá que ficava a comida. A porta estava entreaberta e imóvel e ele sentiu um enjôo que revirou-lhe o estômago. Não queria mais comer, talvez apenas tomar uma bebida. Sem tirar os olhos da porta da dispensa, alcançou a geladeira. A luz estava queimada, mas ele conseguiu achar uma última lata. As tranças não estavam ali.

Saiu da cozinha e olhou para o lado de fora da casa, através da janela do corredor. Viu seu carro, apesar da escura rua. No porta-malas, jazia um saco nem grande, nem pequeno, apenas do tamanho certo.

Precisava dormir, descansar. No pé da escada a mesinha com correspondências ainda estava lá e uma delas, amarrada com um fio de barbante, estava endereçada para outra pessoa. Amarrada?! Pegou o envelope, abriu… e viu alguns postais e uma foto antiga. Alguém com tranças…

Ele sentia-se exausto. Subiu rapidamente até seu quarto e trancou a porta. Deitou-se no seu lado da cama, com os olhos fixos no teto. Ela não demorou.

Com a dádiva da fúria de quem foi morta e enterrada num bosque escuro ela veio: não com belas tranças e olhos angelicais. Não com perfume floral e nem com mãos sedosas. Mas como um ser disforme, desfigurado e fétido, que busca uma fria vingança.

Ele tentou pedir perdão.

No dia seguinte o diagnóstico foi infarto fulminante.

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mar 13 2010

Pagamento

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Sinto o ódio através das paredes. Estou aqui, neste decadente barraco, quase sabendo pelo que passarei. O que mais poderia ser?

A madrugada parece lembrar-me do que fiz. Quem roubei, violentei ou matei. Isto não importa…carrego junto a mim minha arma assassina.

Posso ver a movimentação na noite. Pensei em ser corajoso, como nos filmes, morrer atirando, mas…

Escancaro a porta dos fundos antes do cerco. Por vielas escuto gritos e sussurros.

Corro através do labirinto de construções já conhecidas e sinto o cheio da liberdade, dos perfumes baratos, do dinheiro e das drogas.

Dizem que não se ouve o tiro que lhe atinge, mas hoje, nesta noite, escutei até o que não queria.

O primeiro manchou às costas da alva camisa, outro livrou-me de uma orelha. Senti o cheiro de pólvora.

Tudo era um amontoado de sons e zunidos. A favela parecia que fervilhava como demônios a rirem de meu estado. Moradores, roedores traidores.

Ainda corri, caí da ponte improvisada e arrastei-me até a margem de capim fétido. Implorando piedade?

Minha arma, jaz enterrada no fundo do esgoto, e eu…agora apenas uma sombra, arrastava-me, buscando uma inútil esperança

Levantei e outro tiro fez-me prisioneiro do meu corpo. O medo e o sangue jorravam pela minha boca. O frio era intenso, mesmo sendo uma quente noite de verão.

Uma bota em minha cabeça, um último escárnio e o projétil arremessou minha alma para a escuridão.

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mar 3 2010

O quarto

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Despertou com um susto. A penumbra do quarto turvou, por um momento, sua razão. Não sabia onde estava e isto rapidamente o incomodou. Notou que estava deitado em uma cama. Os lençóis estavam remexidos e molhados de suor. Ficou por alguns momentos em silêncio, escutando apenas o leve barulho vindo da rua. Olhou para o chão e notou suas roupas caídas em um dos cantos.

Com uma rápida olhada constatou que era um quarto imundo de hotel de terceira categoria. Seu instinto dizia para ele sair, pois não se lembrava de como viera parar ali.

Arriscou colocar o pé no chão do quarto e uma dor de cabeça apareceu.

Mesmo assim rumou para o monte com suas roupas. Vestiu-se rapidamente. A falta de luz do quarto era compensada pela claridade do luminoso do hotel, que ficava a piscar de tempos em tempos.

Recomposto, conseguiu ver melhor o local. Uma mobília miúda e sem expressão estava espalhada pelo ambiente. Um criado mudo, um guarda-roupa sem portas e um sofá, com uma velha manda jogada em cima, certamente para cobrir os buracos provocados pelo tempo.

O carpete puído no centro completava a quadro de desolação.

Estava sem relógio e não tinha ideia de que horas eram. Pelo silêncio e pela escuridão, acreditou ser de
madrugada. O sentimento de sair dali aflorou subitamente. Algo estava errado. Forçou a fechadura e esta se abriu com um gemino enorme. Ele estava em um dos últimos quartos e apenas uma luz, no fundo do
corredor, estava acessa.

O espelho em frente à porta havia visto dias melhores. Sua imagem refletida estava estranha, disforme.
Caminhou a passos calmos para a escada, que ficava a sua direita. Começou a descer, quando ouviu uma risada feminina. Um som que fez seu sangue gelar. Parou. Aos poucos se fez um silêncio absoluto.

Continuou a descer mais depressa. Ele sentia a vontade de escapar dali. Daquele lugar estranho. Não sabia o motivo, mas sentia um desejo incontrolável de fugir. Escutou um baque profundo,  acompanhado de um gemido. Sua mão estava no corrimão, com a escuridão ao seu redor. Os lances da escada sucediam-se rapidamente. Ao chegar a um dos andares viu uma pessoa no fundo do corredor, vestida de branco.
Chamou por ela, mas ela não pôde ouvi-lo.

Ouviu novamente o gemido.  Para seu desespero, um corpo rolou pela escada e parou na sua frente. Ele reconheceu o corpo: era ele. Com um horror indizível, subiu pelas escadas, procurando desesperadamente o quarto de onde havia saído. Correndo e gritando insanamente, entrou no quarto e fechou a porta. Recuou até a cama. Era o único local onde ele sentia-se em segurança. Suava muito.

—      Dra. Sandra! Veja o paciente 45! Está com uma leve taquicardia.

—      Sim, parece que está delirando novamente. Pacientes em coma podem ter espasmos de tempos em tempos.

—      Dizem que foi um acidente…

—      Acidentes acontecem. Ele rolou pela escada de um hotel. Bateu a cabeça várias vezes.

A doutora e a enfermeira saíram. Uma mulher de branco entrou no quarto, momentos depois. Junto à cama, sorriu e afagou a mão do marido.

—      Isto mesmo meu bem. Não volte mais do coma. Foi uma bela queda. É pena! Quem você queria ver, não estava mais lá. Foi o maior erro de sua vida trair-me com uma ordinária, em um hotel imundo como aquele. Algo imperdoável. Mas, muito oportuno. Nunca havia batido em alguém com um taco. – um sorriso de prazer brotou em seus lábios – Admito que foi interessante ver você rolar escada abaixo.

Soltando uma gargalhada, saiu. Na porta, olhou para trás e completou:

—      Os advogados dizem que poderei pegar todo o seu dinheiro no próximo mês. Mas fique tranqüilo. Cuidarei de você para que tenha bons sonhos…para sempre!
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Se preferir, ouça o conto clicando no player lá em cima, no começo do post. Esse conto faz parte do Especial Edgar Allan Poe, do Podcast Estilingue.