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Sinto o ódio através das paredes. Estou aqui, neste decadente barraco, quase sabendo pelo que passarei. O que mais poderia ser?
A madrugada parece lembrar-me do que fiz. Quem roubei, violentei ou matei. Isto não importa…carrego junto a mim minha arma assassina.
Posso ver a movimentação na noite. Pensei em ser corajoso, como nos filmes, morrer atirando, mas…
Escancaro a porta
dos fundos antes do cerco. Por vielas escuto gritos e sussurros.
Corro através do labirinto de construções já conhecidas e sinto o cheio da liberdade, dos perfumes baratos, do dinheiro e das drogas.
Dizem que não se ouve o tiro que lhe atinge, mas hoje, nesta noite, escutei até o que não queria.
O primeiro manchou às costas da alva camisa, outro livrou-me de uma orelha. Senti o cheiro de pólvora.
Tudo era um amontoado de sons e zunidos. A favela parecia que fervilhava como demônios a rirem de meu estado. Moradores, roedores traidores.
Ainda corri, caí da ponte improvisada e arrastei-me até a margem de capim fétido. Implorando piedade?
Minha arma, jaz enterrada no fundo do esgoto, e eu…agora apenas uma sombra, arrastava-me, buscando uma inútil esperança
Levantei e outro tiro fez-me prisioneiro do meu corpo. O medo e o sangue jorravam pela minha boca. O frio era intenso, mesmo sendo uma quente noite de verão.
Uma bota em minha cabeça, um último escárnio e o projétil arremessou minha alma para a escuridão.
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