Tranças
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Ele entrou na casa. Tudo estava quieto e tranqüilo. Ela já estava a sua espera.
Parecia que ele nunca estivera ali. Um sentimento de perda, sem perdão entrou em seu coração imediatamente. Jogou-se em uma das poltronas da sala quase escura, onde uma luz fraca clareava a ponta de suas botas. Olhou detidamente para o local, tudo parecia no lugar então soltou as chaves do carro novo que estava em sua mão.
Ela sentiu, do alto da escada, um vento passar por entre seus cabelos e com um arrepio ouviu o relógio tocar.
Esticou a mão e pegou um dos porta retratos que estavam sobre a mesinha mais próxima. Olho o feliz casal, o sorriso cativante esperando o timer da máquina captar o momento. A foto mostrava ainda uma toalha xadrez sobre um gramado quase infinito, que terminava aos pés de um escuro bosque, cheio de lembranças recentes e antigas que mereciam ser esquecidas, mas que não seriam. Pelo menos, não por enquanto.
Levantou-se chegando aos pés da escada. Reparou que, sobre a mesa de correspondências, existia uma que não tinha seu nome e que estava amarrada com um fino barbante. Mesmo assim cortou o barbante e viu que dentro do envelope existiam três velhos postais e a foto de uma criança, com um sorriso sem dentes, que denunciava-lhe a idade. Deixou ali essas coisas e subiu os lances da escada, dois a dois.
Parou no corredor e o vento gelado correu por entre seus dedos. Olhou para sua direita e viu a janela no fundo do corredor aberta. Uma sensação surgiu no fundo de sua mente. Uma sensação nada boa.
Espantou tais pensamentos, entrou em seu quarto, pegou uma toalha e entrou no banheiro. A água demorou a esquentar.
Ela gostava do barulho. Gostava do vapor, do suor, do torpor.
Terminou de enxugar-se quando escutou algo trincar. Algumas gotas de água ainda insistiam em cair. Podia ouvir seu coração bater tão alto como o som do relógio da copa. Aproximou-se do espelho e viu que ele havia quebrado em um dos cantos. Olhou tão de perto que, por instantes, tudo parecia ter escurecido.
Ela queria um momento a sós. Ela teria o que queria. Mesmo com seus olhos nublados, pensou que tinha direito a mais um capricho, mais um desejo, mais um querer.
Voltou para o quarto e viu a grande cama, metade dela vazia. Um sentimento estranho, sem sentido aflorou. Sabia que havia o vazio, mas isso o incomodou. Precisava comer para sentir-se bem novamente, comer um bocado de algo quente com um bom copo de cerveja gelada. O gosto veio atrelado a um pensamento: e se a cozinha não estivesse vazia?
Desceu os degraus um a um, escutando cada um dos rangidos da velha madeira sobre seus pés. Virou para a esquerda e viu a luz da cozinha acessa.
Ela era boa no que fazia. Professora do ano, uma foto com o diretor, um certificado na parede do corredor.
De lá, via-se a cozinha iluminada com sua luz fria. Pela primeira vez na noite, ele pronunciou um nome. Apagou e acendeu a luz da cozinha duas vezes. Cautelosamente entrou.
Pensou ter visto trança, longas e loiras, correndo para dentro da dispensa. Era lá que ficava a comida. A porta estava entreaberta e imóvel e ele sentiu um enjôo que revirou-lhe o estômago. Não queria mais comer, talvez apenas tomar uma bebida. Sem tirar os olhos da porta da dispensa, alcançou a geladeira. A luz estava queimada, mas ele conseguiu achar uma última lata. As tranças não estavam ali.
Saiu da cozinha e olhou para o lado de fora da casa, através da janela do corredor. Viu seu carro, apesar da escura rua. No porta-malas, jazia um saco nem grande, nem pequeno, apenas do tamanho certo.
Precisava dormir, descansar. No pé da escada a mesinha com correspondências ainda estava lá e uma delas, amarrada com um fio de barbante, estava endereçada para outra pessoa. Amarrada?! Pegou o envelope, abriu… e viu alguns postais e uma foto antiga. Alguém com tranças…
Ele sentia-se exausto. Subiu rapidamente até seu quarto e trancou a porta. Deitou-se no seu lado da cama, com os olhos fixos no teto. Ela não demorou.
Com a dádiva da fúria de quem foi morta e enterrada num bosque escuro ela veio: não com belas tranças e olhos angelicais. Não com perfume floral e nem com mãos sedosas. Mas como um ser disforme, desfigurado e fétido, que busca uma fria vingança.
Ele tentou pedir perdão.
No dia seguinte o diagnóstico foi infarto fulminante.
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Estão dizendo…