mar 24 2010

Tranças

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Ele entrou na casa. Tudo estava quieto e tranqüilo. Ela já estava a sua espera.

Parecia que ele nunca estivera ali. Um sentimento de perda, sem perdão entrou em seu coração imediatamente. Jogou-se em uma das poltronas da sala quase escura, onde uma luz fraca clareava a ponta de suas botas. Olhou detidamente para o local, tudo parecia no lugar então soltou as chaves do carro novo que estava em sua mão.

Ela sentiu, do alto da escada, um vento passar por entre seus cabelos e com um arrepio ouviu o relógio tocar.

Esticou a mão e pegou um dos porta retratos que estavam sobre a mesinha mais próxima. Olho o feliz casal, o sorriso cativante esperando o timer da máquina captar o momento. A foto mostrava ainda uma toalha xadrez sobre um gramado quase infinito, que terminava aos pés de um escuro bosque, cheio de lembranças recentes e antigas que mereciam ser esquecidas, mas que não seriam. Pelo menos, não por enquanto.

Levantou-se chegando aos pés da escada. Reparou que, sobre a mesa de correspondências, existia uma que não tinha seu nome e que estava amarrada com um fino barbante. Mesmo assim cortou o barbante e viu que dentro do envelope existiam três velhos postais e a foto de uma criança, com um sorriso sem dentes, que denunciava-lhe a idade. Deixou ali essas coisas e subiu os  lances da escada, dois a dois.

Parou no corredor e o vento gelado correu por entre seus dedos. Olhou para sua direita e viu a janela no fundo do corredor aberta. Uma sensação surgiu no fundo de sua mente. Uma sensação nada boa.

Espantou tais pensamentos, entrou em seu quarto, pegou uma toalha e entrou no banheiro. A água demorou a esquentar.

Ela gostava do barulho. Gostava do vapor, do suor, do torpor.

Terminou de enxugar-se quando escutou algo trincar. Algumas gotas de água ainda insistiam em cair. Podia ouvir seu coração bater tão alto como o som do relógio da copa. Aproximou-se do espelho e viu que ele havia quebrado em um dos cantos. Olhou tão de perto que, por instantes, tudo parecia ter escurecido.

Ela queria um momento a sós. Ela teria o que queria. Mesmo com seus olhos nublados, pensou que tinha direito a mais um capricho, mais um desejo, mais um querer.

Voltou para o quarto e viu a grande cama, metade dela vazia. Um sentimento estranho, sem sentido aflorou. Sabia que havia o vazio, mas isso o incomodou. Precisava comer para sentir-se bem novamente, comer um bocado de algo quente com um bom copo de cerveja gelada. O gosto veio atrelado a um pensamento: e se a cozinha não estivesse vazia?

Desceu os degraus um a um, escutando cada um dos rangidos da velha madeira sobre seus pés. Virou para a esquerda e viu a luz da cozinha acessa.

Ela era boa no que fazia. Professora do ano, uma foto com o diretor, um certificado na parede do corredor.

De lá, via-se a cozinha iluminada com sua luz fria. Pela primeira vez na noite, ele pronunciou um nome. Apagou e acendeu a luz da cozinha duas vezes. Cautelosamente entrou.

Pensou ter visto trança, longas e loiras, correndo para dentro da dispensa. Era lá que ficava a comida. A porta estava entreaberta e imóvel e ele sentiu um enjôo que revirou-lhe o estômago. Não queria mais comer, talvez apenas tomar uma bebida. Sem tirar os olhos da porta da dispensa, alcançou a geladeira. A luz estava queimada, mas ele conseguiu achar uma última lata. As tranças não estavam ali.

Saiu da cozinha e olhou para o lado de fora da casa, através da janela do corredor. Viu seu carro, apesar da escura rua. No porta-malas, jazia um saco nem grande, nem pequeno, apenas do tamanho certo.

Precisava dormir, descansar. No pé da escada a mesinha com correspondências ainda estava lá e uma delas, amarrada com um fio de barbante, estava endereçada para outra pessoa. Amarrada?! Pegou o envelope, abriu… e viu alguns postais e uma foto antiga. Alguém com tranças…

Ele sentia-se exausto. Subiu rapidamente até seu quarto e trancou a porta. Deitou-se no seu lado da cama, com os olhos fixos no teto. Ela não demorou.

Com a dádiva da fúria de quem foi morta e enterrada num bosque escuro ela veio: não com belas tranças e olhos angelicais. Não com perfume floral e nem com mãos sedosas. Mas como um ser disforme, desfigurado e fétido, que busca uma fria vingança.

Ele tentou pedir perdão.

No dia seguinte o diagnóstico foi infarto fulminante.

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mar 3 2010

O quarto

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Despertou com um susto. A penumbra do quarto turvou, por um momento, sua razão. Não sabia onde estava e isto rapidamente o incomodou. Notou que estava deitado em uma cama. Os lençóis estavam remexidos e molhados de suor. Ficou por alguns momentos em silêncio, escutando apenas o leve barulho vindo da rua. Olhou para o chão e notou suas roupas caídas em um dos cantos.

Com uma rápida olhada constatou que era um quarto imundo de hotel de terceira categoria. Seu instinto dizia para ele sair, pois não se lembrava de como viera parar ali.

Arriscou colocar o pé no chão do quarto e uma dor de cabeça apareceu.

Mesmo assim rumou para o monte com suas roupas. Vestiu-se rapidamente. A falta de luz do quarto era compensada pela claridade do luminoso do hotel, que ficava a piscar de tempos em tempos.

Recomposto, conseguiu ver melhor o local. Uma mobília miúda e sem expressão estava espalhada pelo ambiente. Um criado mudo, um guarda-roupa sem portas e um sofá, com uma velha manda jogada em cima, certamente para cobrir os buracos provocados pelo tempo.

O carpete puído no centro completava a quadro de desolação.

Estava sem relógio e não tinha ideia de que horas eram. Pelo silêncio e pela escuridão, acreditou ser de
madrugada. O sentimento de sair dali aflorou subitamente. Algo estava errado. Forçou a fechadura e esta se abriu com um gemino enorme. Ele estava em um dos últimos quartos e apenas uma luz, no fundo do
corredor, estava acessa.

O espelho em frente à porta havia visto dias melhores. Sua imagem refletida estava estranha, disforme.
Caminhou a passos calmos para a escada, que ficava a sua direita. Começou a descer, quando ouviu uma risada feminina. Um som que fez seu sangue gelar. Parou. Aos poucos se fez um silêncio absoluto.

Continuou a descer mais depressa. Ele sentia a vontade de escapar dali. Daquele lugar estranho. Não sabia o motivo, mas sentia um desejo incontrolável de fugir. Escutou um baque profundo,  acompanhado de um gemido. Sua mão estava no corrimão, com a escuridão ao seu redor. Os lances da escada sucediam-se rapidamente. Ao chegar a um dos andares viu uma pessoa no fundo do corredor, vestida de branco.
Chamou por ela, mas ela não pôde ouvi-lo.

Ouviu novamente o gemido.  Para seu desespero, um corpo rolou pela escada e parou na sua frente. Ele reconheceu o corpo: era ele. Com um horror indizível, subiu pelas escadas, procurando desesperadamente o quarto de onde havia saído. Correndo e gritando insanamente, entrou no quarto e fechou a porta. Recuou até a cama. Era o único local onde ele sentia-se em segurança. Suava muito.

—      Dra. Sandra! Veja o paciente 45! Está com uma leve taquicardia.

—      Sim, parece que está delirando novamente. Pacientes em coma podem ter espasmos de tempos em tempos.

—      Dizem que foi um acidente…

—      Acidentes acontecem. Ele rolou pela escada de um hotel. Bateu a cabeça várias vezes.

A doutora e a enfermeira saíram. Uma mulher de branco entrou no quarto, momentos depois. Junto à cama, sorriu e afagou a mão do marido.

—      Isto mesmo meu bem. Não volte mais do coma. Foi uma bela queda. É pena! Quem você queria ver, não estava mais lá. Foi o maior erro de sua vida trair-me com uma ordinária, em um hotel imundo como aquele. Algo imperdoável. Mas, muito oportuno. Nunca havia batido em alguém com um taco. – um sorriso de prazer brotou em seus lábios – Admito que foi interessante ver você rolar escada abaixo.

Soltando uma gargalhada, saiu. Na porta, olhou para trás e completou:

—      Os advogados dizem que poderei pegar todo o seu dinheiro no próximo mês. Mas fique tranqüilo. Cuidarei de você para que tenha bons sonhos…para sempre!
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Se preferir, ouça o conto clicando no player lá em cima, no começo do post. Esse conto faz parte do Especial Edgar Allan Poe, do Podcast Estilingue.