Presentes
Podcast: Play in new window | Download (Duration: 7:21 — 5.1MB)
A sacola pesava em suas mãos. A leve chuva que caía não era motivo para que ele reduzisse seus passos, pois já estava bem atrasado. Um encontrão aqui, outro empurrão aqui, era parte do ritual, devido as ruas entupidas de pessoas que faziam suas compras de final de ano.
“Ela irá gostar”, pensou ele em sua netinha de poucos anos. Havia comprado um ursinho azul (ela adorava azul) e esperava que ela gostasse. Olhou novamente no relógio, e notou que se não corresse não chegaria em casa a tempo de entregar o presente e as frutas para a ceia.
Ao passar por debaixo de uma ponte viu uma criança que se abrigava da garoa. A menina estava triste, um roupa um pouco poída e um olhar perdido no tempo. Ela tinha um pouco mais do que a idade de sua neta. Passou pela menina de olhar triste e continuou o seu caminho. Mas algo o fez parar. Com certeza a pequena garota não teria uma noite feliz e talvez nunca tivesse tido. Continuou olhando para frente, perdido em velhos pensamentos, lembrando da vida difícil que havia levado em sua infância. E agora sempre tentava dar o melhor possível para que sua família não sofresse o que ele havia sofrido.
Vagarosamente voltou seu olhar para a menina que continuava sentada no tijolo, tentando esconder-se da chuva. A sacola com o urso de pelúcia queimava em suas mãos. Voltou pela calçada até parar na frente da menina, tirou o presente da sacola, deu para ela e desejou uma noite feliz para ela. Deu um pouco das frutas que carregava também. A felicidade da criança foi evidente. Ela perguntou se ele era o papai noel de verdade, ele disse que não, apesar da sua rala barba branda começar a denunciar sua idade. Pode escutar gritos de alegria enquanto se afastava dali. Sua neta entenderia, com certeza, o bem que ele fizera.
Contudo, precisa apressar-se ainda mais. Ao chegar a um cruzamento parou, aguardando o sinal dos carros fechar para que pudesse atravessar a rua. Foi ai que viu um senhor, com óculos escuros, andar inseguro, que tateava com sua bengala seguir em frente. Seu sangue gelou. O tempo parecia correr bem mais lentamente, parecia que o relógio estava parado. Olhou pela rua e viu que um ônibus aproximava-se rapidamente. Não pensou duas vezes; correu em direção ao velho agarrou seu casado e o puxou violentamente para trás. Por poucos centímetros conseguiu salvá-lo. O ônibus passou buzinando e em alta velocidade.
O velho, ainda assustado, agradeceu enormemente. Disse que estava meio perdido e que não saberia chegar sozinho em sua casa, que ficava não muito longe dali. Pediu se não poderia ajudá-lo. Ele olhou em seu relógio e viu que ainda daria tempo de chegar para a ceia se fosse rápido.
O velho segurava fortemente em seu braço, talvez com medo de cair ou tropeçar em algum buraco. Pelo caminho foi contando sobre como as pessoas estão ficando cada vez mais descrestes, sobre a falta de bondade e sobre outros pensamentos. Ele por sua vez tentava sempre animar o estranho ancião, dizendo das coisas belas e boas da vida. E assim foram, primeiro passando por ruas arborizadas, caminhando por um dos bairros que ele dificilmente freqüentava. As ruas foram ficando cada vez mais desertas, latas rolavam pelas calçadas sujas e portões mal lubrificados, não obedeciam mais seus trincos.
O sol já havia sumido no horizonte quando chegaram em frente a uma casa castigada pelo tempo, que possuia uma luz avermelhada vindo da sala principal. Tentou despedir-se do velhote, mas esse insistia cada vez mais para que ele entrasse. Ele cortesmente disse mais uma vez não, quando uma forte pancada na cabeça o fez cair no meio fio.
Ele começo a recobrar a consciência aos poucos. Estava no chão, com as mãos amarradas as costas e com o rosto sobre um velho tapete empoeirado. A luz incandescente que pendia do teto, no centro do quarto era muito fraca, mal dando para ver tudo o que ele continha. Forçando a vista viu um cena chocante. Em um dos cantos uma mulher estava jogada, morta, com sangue por todo o corpo. Ao seu lado um homem, também morto. Tentou gritar, mas viu que estava amordaçado. Começou a se debater, quando o velho apareceu. Olhou ele, com um sorrido terrível no rosto, sem os óculos escuros. Ele não era cego! Junto a ele surgiram dois outros velhos, com o mesmo olhar de desprezo. O velho disse:
- Você deveria estar agradecido! Será o meu presente!
Foi ai que ele escutou um som vindo de cima. A luz não deixava ele ver direito, mas parecia um berço estranho. O som era, era, inumano! Seu sangue gelou, o coração batia descontroladamente e o suor aflorou por todos os poros. Aos poucos vislumbrou um ser que parecia ter saído de um filme antigo. Era pequeno, possuia dentes pontiagudos e um olhar sem compaixão. O hálito de latrina completava o terrível quadro. Olhou de lado e entendeu a cena: a criatura havia matado aquelas pessoas e chegava a vez dele.
Começou a pensar em sua família, e lágrimas afloraram em seus olhos. A criatura parecia que iria descer para dar o bote quando, de repente, a porta foi escancarada seguida de uma voz:
- O que é isso???? Atirem nessa coisa!
Logo em seguida, ele desmaiou.
Acordou em uma maca, já fora da casa. As luzes vermelhas iluminavam a vizinhança, que parecia agora estar toda na rua. Um policial chegou perto dele e contou o que havia acontecido. Ao chegarem na casa, olharam pela janela e viram que ele estava amarrado no chão, possivelmente sofrendo alguma violência. Ao arrebentarem a porta, deparam-se com um ser estranho e mais três pessoas. Atiraram na coisa, que desapareceu e não foi encontrada. Quando aos velhos, foram presos por assassinato, cárcere privado e tortura.
Os médicos iam levá-lo para a ambulância, quando ele perguntou como eles o haviam encontrado. O policial apontou para uma casa próxima, dizendo que uma garotinha ligara dizendo que homens maus haviam batido no papai noel. Ao longe, viu uma menina com um urso azul nas mãos, antes que os analgésicos fizessem com que ele dormisse novamente.
__________________________________________________________
Se preferir, ouça o conto clicando no player lá em cima, no começo do post. Todos os efeitos sonoros são do site The Freesound Project.
Estão dizendo…