mar 3 2010

O quarto

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Despertou com um susto. A penumbra do quarto turvou, por um momento, sua razão. Não sabia onde estava e isto rapidamente o incomodou. Notou que estava deitado em uma cama. Os lençóis estavam remexidos e molhados de suor. Ficou por alguns momentos em silêncio, escutando apenas o leve barulho vindo da rua. Olhou para o chão e notou suas roupas caídas em um dos cantos.

Com uma rápida olhada constatou que era um quarto imundo de hotel de terceira categoria. Seu instinto dizia para ele sair, pois não se lembrava de como viera parar ali.

Arriscou colocar o pé no chão do quarto e uma dor de cabeça apareceu.

Mesmo assim rumou para o monte com suas roupas. Vestiu-se rapidamente. A falta de luz do quarto era compensada pela claridade do luminoso do hotel, que ficava a piscar de tempos em tempos.

Recomposto, conseguiu ver melhor o local. Uma mobília miúda e sem expressão estava espalhada pelo ambiente. Um criado mudo, um guarda-roupa sem portas e um sofá, com uma velha manda jogada em cima, certamente para cobrir os buracos provocados pelo tempo.

O carpete puído no centro completava a quadro de desolação.

Estava sem relógio e não tinha ideia de que horas eram. Pelo silêncio e pela escuridão, acreditou ser de
madrugada. O sentimento de sair dali aflorou subitamente. Algo estava errado. Forçou a fechadura e esta se abriu com um gemino enorme. Ele estava em um dos últimos quartos e apenas uma luz, no fundo do
corredor, estava acessa.

O espelho em frente à porta havia visto dias melhores. Sua imagem refletida estava estranha, disforme.
Caminhou a passos calmos para a escada, que ficava a sua direita. Começou a descer, quando ouviu uma risada feminina. Um som que fez seu sangue gelar. Parou. Aos poucos se fez um silêncio absoluto.

Continuou a descer mais depressa. Ele sentia a vontade de escapar dali. Daquele lugar estranho. Não sabia o motivo, mas sentia um desejo incontrolável de fugir. Escutou um baque profundo,  acompanhado de um gemido. Sua mão estava no corrimão, com a escuridão ao seu redor. Os lances da escada sucediam-se rapidamente. Ao chegar a um dos andares viu uma pessoa no fundo do corredor, vestida de branco.
Chamou por ela, mas ela não pôde ouvi-lo.

Ouviu novamente o gemido.  Para seu desespero, um corpo rolou pela escada e parou na sua frente. Ele reconheceu o corpo: era ele. Com um horror indizível, subiu pelas escadas, procurando desesperadamente o quarto de onde havia saído. Correndo e gritando insanamente, entrou no quarto e fechou a porta. Recuou até a cama. Era o único local onde ele sentia-se em segurança. Suava muito.

—      Dra. Sandra! Veja o paciente 45! Está com uma leve taquicardia.

—      Sim, parece que está delirando novamente. Pacientes em coma podem ter espasmos de tempos em tempos.

—      Dizem que foi um acidente…

—      Acidentes acontecem. Ele rolou pela escada de um hotel. Bateu a cabeça várias vezes.

A doutora e a enfermeira saíram. Uma mulher de branco entrou no quarto, momentos depois. Junto à cama, sorriu e afagou a mão do marido.

—      Isto mesmo meu bem. Não volte mais do coma. Foi uma bela queda. É pena! Quem você queria ver, não estava mais lá. Foi o maior erro de sua vida trair-me com uma ordinária, em um hotel imundo como aquele. Algo imperdoável. Mas, muito oportuno. Nunca havia batido em alguém com um taco. – um sorriso de prazer brotou em seus lábios – Admito que foi interessante ver você rolar escada abaixo.

Soltando uma gargalhada, saiu. Na porta, olhou para trás e completou:

—      Os advogados dizem que poderei pegar todo o seu dinheiro no próximo mês. Mas fique tranqüilo. Cuidarei de você para que tenha bons sonhos…para sempre!
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Se preferir, ouça o conto clicando no player lá em cima, no começo do post. Esse conto faz parte do Especial Edgar Allan Poe, do Podcast Estilingue.