A cabana
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Sim, ele sentia… seu coração falhava. Obviamente, não sem razão.
Na parte de fora do velho casebre carcomido pelo tempo, escutava unhas a rasparem as portas, paredes e tentando entrar pelas janelas entulhadas com os poucos móveis do local. Como sairia dali? Como levaria seu já debilitado coração para o mais longe possível daquele lugar? Como ficara nessa condição?
Tudo acontecera muito rápido, há alguns dias… ou seriam meses? Ele já não conseguia distinguir o tempo, talvez pela falta de comida, ou pela pouca água que ainda conseguia sorver em intervalos cada vez mais escassos. A mente prega peças, pensava ele.
Descera no pequeno aeroporto da cidadezinha buscando informações sobre um local que ficava há alguns quilômetros dali. Pergunto para vários moradores locais, que simplesmente o ignoraram. Um deles deu a direção e mostrou a estrada, em troca de algum dinheiro. Após horas de viagem, uma mangueira partida, ou algo assim, fez o carro parar. Ele nunca fora bom com carros, nem com outras coisas. Na verdade, apenas em uma delas: arqueologia. Formado em uma grandiosa universidade no exterior, conseguira realizar muitos sonhos e conhecer muitos lugares. Apesar disso, todo esse conhecimento de nada lhe valia agora. Catalogar histórias de seres do passado já não mais importava. O presente era muito mais forte e desesperador.
Ao viajar para o interior do país, perdeu o contato com tudo e todos. Sem sinal de celular, apenas uma bússola com o vidro trincado, um pouco de comida enlatada, ao sair da estrada para procurar ajuda para seu carro quebrado, perdeu-se na mata fechada. Com o tempo, sua tranquilidade foi ficando cada vez mais afetada ao escutar sons estranhos e um choro que o incomodava.
Explorando desesperadamente a área, conseguiu achar uma casa poida, quase caída, no centro de uma clareira. Buscando ajuda chegou aos pés da escada quando um som inumado chegou aos seus ouvidos, vindo na mata próxima. Instintivamente entrou na casa e fechou a porta, apenas para ser quase jogado ao chão pelo ser que desejava entrar desesperadamente.
Buscando forças, conseguiu manter a porta fechada. O ataque cessou repentinamente. Sem entender o que acontecera, tentou imaginar o que poderia ter sido aquilo. Deveria encontrar urgentemente ajuda, mas antes deveria tentar fechar o máximo possível o pequeno casebre. Notou que ele já estava fortificado, por tábuas nas janelas e mobílias dispostas para impedir a entrada de algo insanamente estranho.
Viu que o local possuía uma pequena cozinha, com alguns baldes com água salobra e nenhuma comida. Em um dos dois quartos encontrou um toco de vela e uma cama destruída para servir de barricada. No outro, uma visão trágica, mostrada apenas pelo sol que entravam pelas frestas do antigo telhado: ossos, ossos humanos quebrados, em uma posição estranha. Como arqueólogo nunca havia visto algo assim antes. Os ossos estavam limpos, brancos como cal, mas colocados de modo a formar um altar e no centro o crânio. Viu que ali estavam os ossos de mais de uma pessoa.
Saiu do
quarto para ver que não havia um porão, apenas um sótão. Colocou uma mesa e forçou a pequena porta, que estava tancada pelo lado de dentro. Começava a escurecer quando um temporal desabou sobre toda a mata. Com seu instinto de sobrevivência aguçado, correu para a cozinha, jogou a água velha e pelas frestas do telhado pegou água nova, pois não sabia quanto tempo ficaria naquela situação.
Por um buraco em uma das paredes viu um vulto passar. Aproximou-se com cautela e olhou para o lado de fora. Só o som da chuva que caía forte era ouvido. Então um guincho ensurdecedor, junto a olhos vermelhos, surgiram na pequena fresta. Ele caiu para trás ao mesmo tempo que a casa começou a ser atacada por todos os lados. Pensou que estava ficando louco. Correu até a sua mochila procurando algo que pudesse defender-se, caso o bando entrasse na casa.
Um trovão ecoou fortemente e os seres assustados correram para longe dali. Novamente o silêncio da chuva voltou a reinar.
Isso havia acontecido apenas no primeiro dia. Ele havia sobrevivido com suas poucas provisões, tomado água da chuva e estava esgotado. As criaturas vinham, tentavam entrar e ele sofria a cada encontro. Ele já não suportava mais. Sentia seu coração fraquejar, olhava a pilha de ossos no quarto, sentia um zumbido que parecia penetrar em sua cabeça.
Havia tomado a trágica decisão. Não suportava ficar ali mais nenhum minuto. O silêncio tomou conta da mata. Iria abrir a porta e correr o máximo que suas forças permitissem. Quem sabe conseguiria escapar? Abriu a porta com o máximo cuidado e olhou em volta. Nenhum movimento nem dentro e nem perto da clareira. Para conseguir chegar até a mata teria que correr uns 50 metros e estava disposto a tentar.
Em um instante pegou-se correndo, seu chapéu caiu com o vento, seus passos surdos na grama baixa. Foi ai que escutou o grito. Correu o máximo que pode até sentir o cheiro das criaturas atingir suas narinas. Suplicou por piedade. Foi envolvido por seres que haviam deixado de serem humanos há muito tempo.
A dois quilômetros dali, em cima de uma alta guarita camuflada e isolada por uma cerca eletrificada, um soldado olhava a triste cena ao lado de seu superior.
- Ele resistiu por quatro dias, cinco horas e doze minutos senhor.
- Sim, sim, foi um dos melhores até agora. Nosso informante trabalhou bem outra vez, lembre-me de dar-lhe mais alguns trocados. Agora solte o dissipador e faça com que as cobaias vão para suas tocas. Precisamos pegar os equipamentos instalados no sótão da casa para concluirmos o experimento.
Logo em seguida foi ouvido um som parecido com um forte trovão, fazendo com que as criaturas, que um dia haviam sido humanas, corressem para as tocas que ficavam em círculo em volta da clareira. Do arqueólogo, sobrou apenas o chapéu, que depois foi colocado sobre a pilha de ossos brancos, dentro da cabana.
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Estão dizendo…