dez 4 2010

A cabana

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Sim, ele sentia… seu coração falhava. Obviamente, não sem razão.

Na parte de fora do velho casebre carcomido pelo tempo, escutava unhas a rasparem as portas, paredes e tentando entrar pelas janelas entulhadas com os poucos móveis do local. Como sairia dali? Como levaria seu já debilitado coração para o mais longe possível daquele lugar? Como ficara nessa condição?

Tudo acontecera muito rápido, há alguns dias… ou seriam meses? Ele já não conseguia distinguir o tempo, talvez pela falta de comida, ou pela pouca água que ainda conseguia sorver em intervalos cada vez mais escassos. A mente prega peças, pensava ele.

Descera no pequeno aeroporto da cidadezinha buscando informações sobre um local que ficava há alguns quilômetros dali. Pergunto para vários moradores locais, que simplesmente o ignoraram. Um deles deu a direção e mostrou a estrada, em troca de algum dinheiro. Após horas de viagem, uma mangueira partida, ou algo assim, fez o carro parar. Ele nunca fora bom com carros, nem com outras coisas. Na verdade, apenas em uma delas: arqueologia. Formado em uma grandiosa universidade no exterior, conseguira realizar muitos sonhos e conhecer muitos lugares. Apesar disso, todo esse conhecimento de nada lhe valia agora. Catalogar histórias de seres do passado já não mais importava. O presente era muito mais forte e desesperador.

Ao viajar para o interior do país, perdeu o contato com tudo e todos. Sem sinal de celular, apenas uma bússola com o vidro trincado, um pouco de comida enlatada, ao sair da estrada para procurar ajuda para seu carro quebrado, perdeu-se na mata fechada. Com o tempo, sua tranquilidade foi ficando cada vez mais afetada ao escutar sons estranhos e um choro que o incomodava.

Explorando desesperadamente a área, conseguiu achar uma casa poida, quase caída, no centro de uma clareira. Buscando ajuda chegou aos pés da escada quando um som inumado chegou aos seus ouvidos, vindo na mata próxima. Instintivamente entrou na casa e fechou a porta, apenas para ser quase jogado ao chão pelo ser que desejava entrar desesperadamente.

Buscando forças, conseguiu manter a porta fechada. O ataque cessou repentinamente. Sem entender o que acontecera, tentou imaginar o que poderia ter sido aquilo. Deveria encontrar urgentemente ajuda, mas antes deveria tentar fechar o máximo possível o pequeno casebre. Notou que ele já estava fortificado, por tábuas nas janelas e mobílias dispostas para impedir a entrada de algo insanamente estranho.

Viu que o local possuía uma pequena cozinha, com alguns baldes com água salobra e nenhuma comida. Em um dos dois quartos encontrou um toco de vela e uma cama destruída para servir de barricada. No outro, uma visão trágica, mostrada apenas pelo sol que entravam pelas frestas do antigo telhado: ossos, ossos humanos quebrados, em uma posição estranha. Como arqueólogo nunca havia visto algo assim antes. Os ossos estavam limpos, brancos como cal, mas colocados de modo a formar um altar e no centro o crânio. Viu que ali estavam os ossos de mais de uma pessoa.

Saiu do quarto para ver que não havia um porão, apenas um sótão. Colocou uma mesa e forçou a pequena porta, que estava tancada pelo lado de dentro. Começava a escurecer quando um temporal desabou sobre toda a mata. Com seu instinto de sobrevivência aguçado, correu para a cozinha, jogou a água velha e pelas frestas do telhado pegou água nova, pois não sabia quanto tempo ficaria naquela situação.

Por um buraco em uma das paredes viu um vulto passar. Aproximou-se com cautela e olhou para o lado de fora. Só o som da chuva que caía forte era ouvido. Então um guincho ensurdecedor, junto a olhos vermelhos, surgiram na pequena fresta. Ele caiu para trás ao mesmo tempo que a casa começou a ser atacada por todos os lados. Pensou que estava ficando louco. Correu até a sua mochila procurando algo que pudesse defender-se, caso o bando entrasse na casa.

Um trovão ecoou fortemente e os seres assustados correram para longe dali. Novamente o silêncio da chuva voltou a reinar.

Isso havia acontecido apenas no primeiro dia. Ele havia sobrevivido com suas poucas provisões, tomado água da chuva e estava esgotado. As criaturas vinham, tentavam entrar e ele sofria a cada encontro. Ele já não suportava mais. Sentia seu coração fraquejar, olhava a pilha de ossos no quarto, sentia um zumbido que parecia penetrar em sua cabeça.

Havia tomado a trágica decisão. Não suportava ficar ali mais nenhum minuto. O silêncio tomou conta da mata. Iria abrir a porta e correr o máximo que suas forças permitissem. Quem sabe conseguiria escapar? Abriu a porta com o máximo cuidado e olhou em volta. Nenhum movimento nem dentro e nem perto da clareira. Para conseguir chegar até a mata teria que correr uns 50 metros e estava disposto a tentar.

Em um instante pegou-se correndo, seu chapéu caiu com o vento, seus passos surdos na grama baixa. Foi ai que escutou o grito. Correu o máximo que pode até sentir o cheiro das criaturas atingir suas narinas. Suplicou por piedade. Foi envolvido por seres que haviam deixado de serem humanos há muito tempo.

A dois quilômetros dali, em cima de uma alta guarita camuflada e isolada por uma cerca eletrificada, um soldado olhava a triste cena ao lado de seu superior.

- Ele resistiu por quatro dias, cinco horas e doze minutos senhor.

- Sim, sim, foi um dos melhores até agora. Nosso informante trabalhou bem outra vez, lembre-me de dar-lhe mais alguns trocados. Agora solte o dissipador e faça com que as cobaias vão para suas tocas. Precisamos pegar os equipamentos instalados no sótão da casa para concluirmos o experimento.

Logo em seguida foi ouvido um som parecido com um forte trovão, fazendo com que as criaturas, que um dia haviam sido humanas, corressem para as tocas que ficavam em círculo em volta da clareira. Do arqueólogo, sobrou apenas o chapéu, que depois foi colocado sobre a pilha de ossos brancos, dentro da cabana.

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Se preferir, ouça o conto clicando no player lá em cima, no começo do post.


mar 3 2010

O quarto

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Despertou com um susto. A penumbra do quarto turvou, por um momento, sua razão. Não sabia onde estava e isto rapidamente o incomodou. Notou que estava deitado em uma cama. Os lençóis estavam remexidos e molhados de suor. Ficou por alguns momentos em silêncio, escutando apenas o leve barulho vindo da rua. Olhou para o chão e notou suas roupas caídas em um dos cantos.

Com uma rápida olhada constatou que era um quarto imundo de hotel de terceira categoria. Seu instinto dizia para ele sair, pois não se lembrava de como viera parar ali.

Arriscou colocar o pé no chão do quarto e uma dor de cabeça apareceu.

Mesmo assim rumou para o monte com suas roupas. Vestiu-se rapidamente. A falta de luz do quarto era compensada pela claridade do luminoso do hotel, que ficava a piscar de tempos em tempos.

Recomposto, conseguiu ver melhor o local. Uma mobília miúda e sem expressão estava espalhada pelo ambiente. Um criado mudo, um guarda-roupa sem portas e um sofá, com uma velha manda jogada em cima, certamente para cobrir os buracos provocados pelo tempo.

O carpete puído no centro completava a quadro de desolação.

Estava sem relógio e não tinha ideia de que horas eram. Pelo silêncio e pela escuridão, acreditou ser de
madrugada. O sentimento de sair dali aflorou subitamente. Algo estava errado. Forçou a fechadura e esta se abriu com um gemino enorme. Ele estava em um dos últimos quartos e apenas uma luz, no fundo do
corredor, estava acessa.

O espelho em frente à porta havia visto dias melhores. Sua imagem refletida estava estranha, disforme.
Caminhou a passos calmos para a escada, que ficava a sua direita. Começou a descer, quando ouviu uma risada feminina. Um som que fez seu sangue gelar. Parou. Aos poucos se fez um silêncio absoluto.

Continuou a descer mais depressa. Ele sentia a vontade de escapar dali. Daquele lugar estranho. Não sabia o motivo, mas sentia um desejo incontrolável de fugir. Escutou um baque profundo,  acompanhado de um gemido. Sua mão estava no corrimão, com a escuridão ao seu redor. Os lances da escada sucediam-se rapidamente. Ao chegar a um dos andares viu uma pessoa no fundo do corredor, vestida de branco.
Chamou por ela, mas ela não pôde ouvi-lo.

Ouviu novamente o gemido.  Para seu desespero, um corpo rolou pela escada e parou na sua frente. Ele reconheceu o corpo: era ele. Com um horror indizível, subiu pelas escadas, procurando desesperadamente o quarto de onde havia saído. Correndo e gritando insanamente, entrou no quarto e fechou a porta. Recuou até a cama. Era o único local onde ele sentia-se em segurança. Suava muito.

—      Dra. Sandra! Veja o paciente 45! Está com uma leve taquicardia.

—      Sim, parece que está delirando novamente. Pacientes em coma podem ter espasmos de tempos em tempos.

—      Dizem que foi um acidente…

—      Acidentes acontecem. Ele rolou pela escada de um hotel. Bateu a cabeça várias vezes.

A doutora e a enfermeira saíram. Uma mulher de branco entrou no quarto, momentos depois. Junto à cama, sorriu e afagou a mão do marido.

—      Isto mesmo meu bem. Não volte mais do coma. Foi uma bela queda. É pena! Quem você queria ver, não estava mais lá. Foi o maior erro de sua vida trair-me com uma ordinária, em um hotel imundo como aquele. Algo imperdoável. Mas, muito oportuno. Nunca havia batido em alguém com um taco. – um sorriso de prazer brotou em seus lábios – Admito que foi interessante ver você rolar escada abaixo.

Soltando uma gargalhada, saiu. Na porta, olhou para trás e completou:

—      Os advogados dizem que poderei pegar todo o seu dinheiro no próximo mês. Mas fique tranqüilo. Cuidarei de você para que tenha bons sonhos…para sempre!
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Se preferir, ouça o conto clicando no player lá em cima, no começo do post. Esse conto faz parte do Especial Edgar Allan Poe, do Podcast Estilingue.